CELINA CHARLIER toca VILLANI NO VILLAGE



A associação já no título do CD não poderia ser mais feliz: o Villani in the Village refere-se ao recital apresentado pela flautista brasileira radicada em Nova York, Celina Charlier, na Saint Joseph's Church, em março de 2005, no seio da multifacetada e cosmopolita Greenwich Village, bairro da cultura (e berço da revolucionária contracultura dos anos 1960!), da boemia e dos artistas da grande metrópole norte-americana. Pois foi ali que Celina enfrentou, com grande felicidade, o que constitui um dos maiores desafios para o músico: gravar ao vivo. Cada som, cada movimento das sapatilhas da flauta, cada respiração, nada pode ser percebido. A tensão da performance ao vivo, se por um lado eleva ao máximo a temperatura, sublima-se ao mesmo tempo em envolvimento total, a interação que não seria possível em um registro feito com tecnologia de ponta, gravado repetidamente no ambiente frio de um estúdio.

Pode-se perceber, desde o prelude das Brazilian Miniatures (Miniaturas Brasileiras), a enorme admiração que Celina Charlier nutre pelo seu dedicado do CD, o compositor Vilani-Côrtes, seguramente um dos mais importantes da história da música brasileira. A Meiguice, o chamego e a mineirice do prelúdio das Miniaturas de Villani-Côrtes impressionam pelo som aveludado, melancólico, até, que chega a um brilho discreto na toada, movimento seguinte. (E nisto Celina é mestre: alternância de sonoridades, do escuro e aveludado ao som mais brilhante e até ríspido, quando preciso, sem apegar-se a um padrão estereotipado. Se por um lado ela é inconfundível na interpretação, sopro encorpado, fôlego e afinação, por outro ela se permite navegar com facilidade no vasto repertório de sons vogais e consoantes de sua técnica).

Ser mineiro não é apenas um dado da carteira de identidade: é, antes de tudo, um estado de espírito. Isso Villani prova em sua toada, aquele jeitinho de "o meu boi morreu, que será de mim...", já com menos sofreguidão, menos languidez que no prelude que a antecede. No breve choro, terceiro movimento, e na delicada lullaby, Celina mostra sua versatilidade, seu fôlego e afinação na dificílima sustentação da nota aguda final, especialmente em pianissimo. O também curtíssimo baião , que vem a seguir - prova de que Villani quando quer nada fica a dever a Webern em concisão -, chega com alegria, trocando de vez a meiguice mineira do prelude e da toada (passando pelo choro acariocado e mesmo o espírito de berceuse de todos os povos) para o chamego do baião final. Aplausos, merecidíssimos aplausos. Nessa verdadeira aquarela brasileira das Miniaturas de Villani-Côrtes, Celina empenhou-se - e o fez com extrema felicidade - em permitir-lhe a unidade, o espírito do brasileiro, com sua sonoridade inconfundível.

Na sexta faixa, Gabriel arrived (Gabriel chegou) Celina exibe um difícil exercício de destreza rítmica, rica nos contratempos e contrapontos. Em John's cry (Choro do João), sétima faixa, um misterioso blend de brasilidades, pleno de evocações e citações coloridas, cuja interpretação prima por um decantado rigor - cuidado: não é a rigidez dos aprendizes ou dos pretensos eruditos, é o rigor da perfeita sincronia rítmica - e pelas escalas precisas, os agudos sempre afinados, a bossa de quem, por mais escorada em mestrados e PHDs e por mais jeito de novaiorquina que tenha adquirido, nunca perde o suíngue brasileiro. O mesmo pode ser dito do Choro seguinte (extraído da lindíssima Série brasileira do Villani), mas aqui já se revela a Celina do preciosismo, da erudição, um domínio perfeito da coluna de ar e da embocadura, para logo após, nos momentos finais, mostrar com a desenvoltura de sempre que sua técnica já deixa o campo dos profissionais para adentrar o terreno dos virtuoses. Bravo!

Clear waters (Águas claras), nona faixa, tem sabor valseado, mas de pouco ou nada a ver com o Ländler, que teria dado origem à dança austríaca: um quê de miniatura, ao lado da exigência de um tocar com certo piacere em cujas águas somente um pianista como Eshantha Peiris, camerista de mão cheia, poderia flutuar em meio ao enorme domínio de tempi e andamentos que a peça impôs a Celina. O tríptico de valsas (Serenade waltz, Longing waltz e Cheerful waltz) mostra o Villani um mestre do gênero, não da valsa vienense (temos certeza de o seria, se quisesse), mas daquela universal, a que chegou aos lugares mais recônditos e povos mais distantes do mundo com as mais regionais roupagens. Mais uma vez, o domínio rítmico de Celina dita os tempi, os ralentandi e accellerandi, sempre respeitando as respirações do piano de Eshanta; a difícil nota final da Longing Waltz, com que mais uma vez o compositor desafia a técnica de Celina, conclui a valsa que a flauta parece tocar sozinha, tal a naturalidade com que Celina enfrenta com seu jeito de menina obras de grande maturidade composicional. Tal facilidade técnica brinca com o ouvinte aqui e ali, e surge novamente no movimento seguinte, no difícil moto da última valsa, Cheerful (plena de alegria... e como faz jus ao título!).

Sakura fantasy, faixa treze, é um mimo, uma misteriosa seqüência de timbres, acordes e arpejos ao piano com óbvias evocações de culturas orientais, aproveitando-se de modo especial da acústica da igreja (e que ninguém estranhe se sentir aqui algum sabor distante da quena andina). Tecnicamente, são fartos os saltos - diria até ornamentais! - na flauta, aqui e ali exigindo de Celina um som muito bem encorpado no registro grave, e deliciosamente surpreendendo-nos com interpolações de seqüências rítmicas com sabor daquela bossa jobiniana, sempre retornando ao mood a que o autor, divagando livremente, livre-pensando como nas boas Fantasiestüke dos grandes mestres do romantismo, nos transporta com invulgar lirismo. Não poderia haver interpréte melhor para as fantasias villanianas: a admiração de Celina pelo compositor ultrapassa em muito as fronteiras de uma simples musicista a serviço do compositor, ela chega a uma verdadeira cumplicidade artística, uma intérprete - parafraseando Pirandello – em busca constante de seu autor.

O Flute concerto (Concerto para flauta, faixas catorze, quinze e dezesseis) é uma saborosa diversão, um passeio que começa no gingado (literalmente, título do primeiro movimento) do agreste, no canto quase pastoril do moderato e termina feliz no allegro final, que não poupa a técnica da flautista, pleno que é de difíceis ornamentos, modulações, verdadeiros gorgeios cromáticos. Afinal, tudo de que Celina precisa para desfiar seu imenso repertório de sonoridades e facilidades, abusando de cores e saltos de grande extensão, até nas cadências livres em que a intérprete reafirma seu raro talento, o bom-gosto com que faz de seu instrumento uma extensão natural de seu corpo e sentimentos.

Na décima-sétima e última faixa, Baião (encore - ou "bis"), Celina se diverte extraindo sonoridades que evocam dos pífaros do Caruaru ao respirar plangente do fole da sanfona, sabor que somente uma brasileirinha que conhece suas raízes poderia extrair (com as desculpas se aqui parecemos un petit peu barristas, ou melhor, nacionalistas).

Villani perfila entre os compositores brasileiros mais prolíficos, ao construir uma vasta obra que consegue ser ao mesmo tempo variada e homogênea. O Leitmotiv, digamos assim, o principio que a unifica é sua mineirice, aliado a um conhecimento teórico ímpar e uma técnica que os grandes mestres do arranjo, como ele, conquistaram em muitos anos de labuta nas rádios, gravadoras e estúdios. Some-se a isso a obsessão perfeccionista de um sábio na arte e na vida – tudo isso, com a simplicidade matreira e a humildade que lhe são características. Para reverenciá-lo nesses 75 anos – e aqui nos juntamos, músicos de todo o Brasil -, temos neste CD um casamento musical perfeito, par de uma flautista que tem dedicado boa parte de seu tempo descobrindo, reinventando, estreando e, especialmente, divulgando a melhor música brasileira, e em especial o trabalho de Villani-Côrtes.

Um grande intérprete se faz com um ouvido perfeito, formação sólida, conhecimento de estilos de época e autores, domínio técnico de seu instrumento, obsessão, erudição, muita pesquisa, dedicação plena e a sensibilidade e a magia que logra transmitir ao público mais exigente um coração de artista transbordante de sentimentos. Celina Charlier é tudo isso.

Henrique Autran Dourado
Contrabaixista, Compositor
Diretor da Escola Municipal de Música de São Paulo
Membro da Associação Paulista de Críticos de Arte


Em São Paulo, o cd "Villani in the Village" encontra-se à venda na Livraria Duas Cidades.

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